Rotina e desejo
Tornar o familiar estranho outra vez
Estabilidade e aventura. Rotina e desejo. Segurança e imprevisibilidade. Palavras contraditórias para expressar o que, com frequência, buscamos em um relacionamento.
Primeiro, nos deparamos com o desconhecido. Ele nos chama para tatear o escuro, o corpo todo arrepiado. Depois, o espaço vai clareando e começamos a reconhecer dobras, pintas, caminhos no corpo do outro. Até que, passado um tempo, a clareza começa a nos cegar. O que acontece quando duas pessoas se conhecem de trás para frente?
Subitamente começam a querer virar as coisas de cabeça para baixo. Para ver se, de ângulos diferentes, conseguem descobrir caminhos inusitados, adentrar novamente o outro como uma floresta à meia luz. Para que aquele rosto tão familiar se torne, em um lampejo, um estranho outra vez. Para que se perguntem, de repente: quem é você?
Quem é você, do outro lado da mesa, derrubando migalhas de pão enquanto mastiga? Quem é você, atrás do vidro do box, um borrão sob os pingos escorrendo? Quem é você, a cara amassada pela fronha babada? E quem sou eu, observando você? Você ainda me vê?
A repetição aplana o olhar. Todo dia parece começar igual ao anterior, eu acordo primeiro, tomo café. Você levanta depois para tomar banho. A chave girando na porta, eu vou, você volta. O jantar, variação sobre o mesmo tema, como foi seu dia? Um filme, se sobrar tempo, antes de dormir.
É confortável, é quentinho, é familiar. Mas para onde foi o fogo que ardia a pele? Aquele incêndio de ser vista no escuro, dois faróis te mirando, te iluminando. Quando tudo já está claro demais, você começa a desejar um apagão. Um momento inusitado em que as luzes se apagam, você toma um susto, eletrificada pelo medo, ainda que passageiro.
Como caminhar por ruas desconhecidas de mãos dadas, se perder no próprio bairro, pegar a estrada, achar um casebre na serra, experimentar algo novo, uma aula de forró, um sabor de sorvete, sair sozinha, sentir saudade, querer voltar para casa, mudar os móveis de lugar, dançar na sala, trapacear segundas-feiras.
Dormir, acordar. Demorar um pouco mais na cama. Olhar seus olhos fechados, com que estará sonhando? Parar antes do próximo gesto, indagá-lo. As mãos pousadas sobre o teclado, em busca da próxima palavra. Alguma evidência de que existo. A pele arranhada de sol, fervendo. Sim, eu existo. Escuto os berros dos adolescentes no recreio, enquanto espero você tomar banho para irmos ao mercado. Eu existo apesar do seu olhar, mas como eu gosto de morar dentro dele.
Gosto de ser encontrada entre os corredores repletos dos mais variados tipos de macarrão. E, então, onde está? Te procuro entre as azeitonas, os palmitos, as ervilhas enlatadas. Você surge dos molhos de tomates, vermelho como a minha pele que arde após um dia de praia. Não é um incêndio, mas ilumina. O seu olhar no meu.
Me descobrindo, mais uma vez.
Obrigada pela leitura!
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Até a próxima!
Beijos,
Dani



Lindos